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Crítica | Star Trek: Sem Fronteiras

Apesar de um universo expandido entre diversos longas-metragens e uma série de televisão imensurável, o atrativo de “Star Trek” é curto e grosso: um grupo variado de personagens multicolores que se aventuram em pequenas odisseias espaço adentro, sustentadas tanto por sua química quanto pelas incríveis civilizações alienígenas que encontram pelo caminho. Os primeiros dois filmes dessa nova franquia tentaram aumentar as expectativas com eventos cataclísmicos ameaçando o elenco, mas “Star Trek: Sem Fronteiras” consegue recuperar suas raízes televisivas. Tão espetacular quanto parece, esse blockbusters de 150 milhões de dólares é sobre… nada.

Um esforço mais leve e mais engraçado que os outros longas, “Sem Fronteiras” reflete uma mudança na guarda. Com J.J. Abrams passando o bastão para Justin Lin, a obra funciona como um festival de computação gráfica, como se “Velozes e Furiosos” se passasse no futuro, com showdownsdinâmicos e visuais entorpecentes ofuscando uma narrativa concisa. Simon Pegg retorna tanto para seu papel como Scotty quanto para o cargo de co-roteirista ao lado de Doug Jung. O resultado traz a visão certeira de Lin para o cenário e para a composição das sequências, mas ao mesmo tempo sentimos uma desconexão estranha entre o conflito principal e sua escala época. Entretanto, suas qualidades triviais surgem como um alívio – esse é um filme arquitetado para não superestimar sua capacidade de sedução, afastando-se grandiosamente de outros blockbusters imersos no fracasso.

A inconsequente natureza de “Sem Fronteiras” é o grande contraste quando o colocamos ao lado de “Além da Escuridão” (2013), no qual o Capitão Almirante Kirk, responsável por guiar a Enterprise, perde seu emprego em determinado momento e brevemente perde a própria vida. No começo deste novo longa, ele se depara com um fardo muito mais imediato: tédio. Três anos em uma missão planejada para cinco com o objetivo de explorar o cosmos, ele explica em seu diário de bordo.

Os ângulos e as cenas deslizam lindamente através da nave, capturando rostos familiares da equipe – Spock (Zachary Quinto), Uhura (Zoe Saldana), Dr. McCoy (Karl Urban), Sulu (John Cho), Scotty e Chekhov (o infelizmente falecido Anton Yelchin). Eles ainda estão lá, apertando botões, compartilhando bebidas, conversando sobre missões não especificadas. “O que é que estamos buscando?”, Kirk se pergunta, e a resposta permanece vagando por aí.

Mas então o suficiente acontece para cultivar o semblante de grandes expectativas: um misterioso objeto alienígena guardado no casco do navio gera o interesse e a raiva de Krall (Idris Elba, irreconhecível sob quilos e mais quilos de maquiagem), um líder criminoso de origens desconhecidas que invade a nave e utiliza seu séquito robotizado para enfim realizar o motim. A queda subsequente se estende por minutos, desdobrando-se como uma sequência muito bem construída de manobras desafiados, corpos voadores e entulho em chamas que, por um breve momento, sugere perigo real para qualquer um envolvido.

Infelizmente, uma vez que a Enterprise para de mover, o filme segue na mesma direção. Lin finca toda a equipe em um planeta monótono ao lado de um vilão unidimensional. A estranha habilidade de Krall de sorver a energia de seus prisioneiros é pouco explorada e nos é mostrada em uma cena ínfima – e as razões de sua “maldade” são pobremente explicadas no último ato. Grande parte do filme é sobre vários membros separados da Enterprise tentando descobrir como escapar daquele maldito lugar. Esse tipo de cenário normalmente consegue sustentar episódios únicos no show, mas luta para se manter num pacote de 142 minutos.

Como sempre, algumas interações brilham mais que as outras. A princípio sozinho na floresta, Scotty se depara com a sobrevivente Jaylah (Sofia Boutella), uma lutadora albina aparentemente inspirada pela adolescente individualista interpretada por Jennifer Lawrence em “Inverno da Alma”. Ela não é a lutadora mais original que já vimos, mas sua habilidade em manipular campos de força invisíveis concede ao filme uma boa dose de atitude.

O restante do elenco apenas brinca por aí, deixando claro como a maioria desses filmes são movidos pelas personalidades. Muito foi feito através de artigos e matérias jornalísticas no tocante a tornar Sulu um personagem gay, uma revelação que toma conta de três segundos do longa. Para falar a verdade, além de Kirk, o restante da tripulação protagonista teve pouquíssimo tempo quando falamos de backstories. Eles são definidos através de suas trocas consigo mesmos: esqueça a história complicada de Spock como membro de uma raça vulcana; o grande desafio dele é resolver seu relacionamento complicado com Uhura.

Quando finalmente decidem parar com as rixas e provocações, o filme retorna às suas origens. Eventualmente, os sobreviventes se reúnem em uma base escondida por hologramas – uma nave há muito tempo caída no planeta -, utilizando-a como principal meio de sair daquele lugar. Nesse meio tempo, temos uma sequência onde Kirk encontra uma desculpa para invadir o acampamento inimigo com Jaylah, em uma cena que se assemelha muito ao jogo “Space Invaders” – só que em 3D.

Agite tudo com uma ou duas espécies novas de aliens e algumas frases de efeito (“Não há direção relativa no espaço, você só tem a si mesmo”) e voilà: enquanto “Star Trek: Sem Fronteiras” falha no quesito narrativa, consegue compensar com uma parada interminável de distrações. Quando o longa volta a ganhar ritmo, parte disso é pelo fato de ser sem finalidade alguma. A ameaça central gira em torno de uma coisa enigmática com poderes destrutivos e desconhecidos que muitas pessoas diferentes desejam para si.

Mesmo assim, essa saga divertida serpenteia até um terceiro ato e um grandfinale que podemos chamar de “Síndrome do Assassino Escalador”, no qual o antagonista deve irracionalmente voar até uma altura inalcançável enquanto explica todo o seu motivo. Adicione uma tênue conexão com outras obras do universo “Star Trek” para amarrar algumas pontas soltas e todos vão para casa contentes.

Nada sobre esse filme visualmente incrível sugere o menos esforço para reinventar tal estilo narrativo. Se “Star Trek: Sem Fronteiras” existisse fora da arena de reboots e sequências, o ar casual do filme poderia se mostrar como francamente radical para uma produção tão extensiva. Em vez disso, mostra-se como um simulacro da velha e boa rotina.



Thiago Nolla

Escritor e roteirista, estudou em Arkansas na Truman High School e atualmente estuda Rádio, TV, Cinema e Internet na Faculdade Cásper Líbero. Com sete livros escritos, um a ser publicado em Abril, é um inveterado apaixonado por contos de fada e séries de suspense.

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