quando as luzes se apagam

Crítica | Quando as Luzes se Apagam

Como a maioria dos agradáveis filmes de terror, “Quando as Luzes se Apagam” é quase uma experiência física, levando os espectadores do estresse e do horror para uma hilariante quebra de tensão. O envolvimento da nova obra produzida por James Wan deve-se à mecânica muito bem construída do monstro, uma mulher demoníaca chamada Diana que não suporta luz. Como o resulto dessa fotossensibilidade, Diana permanece na sombra, tanto física quanto mental, preparando para a hora certa de atacar. Seus alvos são os remanescentes de uma família dispersa e marcada pelo trauma. Sophie (Maria Bello) é uma mãe sitiada tentando lidar com sua doença mental. Seu filho mais novo, Martin (Gabriel Bateman) passa sua infância desprovido de qualquer figura parental presente. Sua filha mais velha, Rebecca (Teresa Palmer) recentemente foi morar sozinha depois de um desentendimento com sua mãe, e o namorado de Becca, Bret (Alexander DiPersia) quer levar seu relacionamento adiante, mas acaba sendo deixado de lado pela própria insegurança da namorada.

O filme começa de forma estrondosa, uma sequência na fábrica de tecidos que nos remete ao curta que originou a obra em questão. Mas logo o ritmo desacelera, com a história sendo preenchida pelas backstories de cada personagem. Aprendemos bastante através das características peculiares de cada trama e subtrama, como as tentativas de Bret em deixar as roupas no apartamento de Rebecca, ou a paixão da garota por pôsteres de esqueletos de bandas de heavy metal. Palmer e DiPersia especialmente fazem um bom trabalho ao infundir seus personagens com uma vivacidade real.

O restante do longa, entretanto, envolve bastantes gritos, tanto dos personagens quanto do público, graças a Diana. Durante boa parte da narrativa, conseguimos vê-la apenas como uma silhueta retorcida, dando às caras quando as luzes se apagam. O conceito mitológico é tanto simples para entender quanto fácil para construir, à medida em que os personagens descobrem os efeitos de diferentes tipos de iluminação e criam estratégias para sobreviver utilizando objetos domésticos. Algumas cenas até nos levam a pensar o que McGyver faria se tivesse que enfrentar uma criatura dessas com uma lanterna e um rolo de fita isolante.

Com o puro medo não sendo mais capaz para prender os amantes de filmes de terror, “Quando as Luzes se Apagam” tenta adicionar outro nível de ressonância ao medo infligido por Diana. Como “O Babadook”, o longa tenta atenuar as linhas entre a monstruosidade e a fragilidade mental. A origem vilanesca de Diana envolve a história dela e de Sophie numa instituição psiquiátrica. Obviamente, há explanações científicas falsas para os poderes de Dianas, mas elas parecem mais como uma desculpa para invocar o visual aterrorizante de manicômios de outrora (o que, só para constar, ainda causam agonia). O flashback é vago demais, levando-nos a assumir que Diana só consegue existir como uma extensão da condição de Sophie. Tal tensão ajuda a construir um dos grandes propósitos do gênero: expurgar e visualizar coisas sobre as quais a sociedade não se manifesta. Normalmente, isso alude a pessoas jovens fazendo sexo, mas a invocação de uma força paranormal é tão efetiva quanto. Tem a capacidade de construir momentos angustiantes (em quem Martin pode confiar se sua mãe também pode ser a fonte do monstro embaixo de sua cama?) e confronta o modo como certas pessoas demonizam doenças mentais.

Infelizmente, o final do filme, por mais que traga passagens interessantes, não faz jus à trama. É suficiente dizer que o aspecto mental não é tratado com respeito, mas sim como um simples dispositivo para o plot, para ser usado e descartado como tantas lâmpadas quebradas. Em uma cultura que já não aceita de forma plena as vítimas de condições irreversíveis ou graves, isso é desapontador. É fácil não pensar muito sobre filme de terror, deixá-los apenas como as experiências catárticas que são. Mas “Quando as Luzes se Apagam” propositalmente inspira o público a pensar sobre tópicos sérios, e então desconsidera todas as consequências.

A grande sacada aqui é o alicerce da narrativa. A estreia do diretor David F. Sandberg, a mente responsável pelo curta original, se faz de forma impressionante. Primeiramente, conseguir desenvolver um plot satisfatório a partir de um roteiro de dois minutos é um feito a ser aplaudido. Segundamente, o panorama geral, a conjuntura do longa se afasta dos simulacros de terror que saem mês sim, mês não, ignorando a existência de um monstro horrivelmente construído, ou um espírito que empossa alguém ou algo; resgata-se aqui o medo primordial do ser humano, aquilo que nos atormentava quando crianças – e que atormenta alguns até hoje: o medo do escuro.



Thiago Nolla

Escritor e roteirista, estudou em Arkansas na Truman High School e atualmente estuda Rádio, TV, Cinema e Internet na Faculdade Cásper Líbero. Com sete livros escritos, um a ser publicado em Abril, é um inveterado apaixonado por contos de fada e séries de suspense.

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