casamento de verdade

Crítica | Casamento de Verdade

Performances sólidas e intenções decentes parecem ser os únicos na lista de convidados a comparecerem a “Casamento de Verdade”, uma doce, porém previsível narrativa tragicômica sobre uma mulher lésbica que finalmente decide se expor para sua preconceituosa família de Cleveland, decidindo se casar com sua companheira de longa data. Katherine Heigl traz ferocidade e vulnerabilidade ao papel de alguém que encontra coragem para ser quem realmente é em frente aos pais e aos irmãos, mas enquanto o elenco de peso tem seus momentos e nuances cá e lá, o filme dirigido por Mary Agnes Donoghue serve como uma série de exercícios de compreensão para os tradicionalistas conservadores, dependendo piamente do clímax principal para os momentos dramáticos e para o desfecho emocional.

Manter os personagens no escuro por muito tempo enquanto se dá dica após dica para o público pode ser uma estratégia arriscada, e os espectadores podem ser perdoados por revirarem os olhos quando Jenny (Heigl) volta para casa para uma reunião de família e tem que lidar com as usuais perguntas do tipo “Quando você vai encontrar um bom homem e se estabilizar?” feitas por seus pais Eddie (Tom Wilkinson) e Rose (Linda Emond). Seu irmão, Michael (Matthew Metzger), dá o “showzinho” de cinco minutos, durante o qual tenta arranjar-lhe um amigo, enquanto a intrometida Anne (Grace Gummer) a atormenta implacavelmente sobre a provável inexistência de sua vida amorosa. Quando Jenny, em sua quietude, insiste que está num relacionamento, mas se recusa a dividir detalhes, Anne de algum modo se convence de que sua irmã está namorando um homem casado – um plot bobo e desnecessário que leva mais tempo que o necessário para terminar.

O público terá descoberto o que diabos está acontecendo assim que Jenny retorna para seu apartamento no centro da cidade e cumprimenta sua “colega de quarto” Kitty (Alexis Bledel), a qual é, na verdade, sua parceira romântica por cinco anos. Mas quando Eddie tem uma agitada conversa sobre as peripécias de se casar e constituir uma família, ele involuntariamente coloca sua filha num caminho sem volta que a faz anunciar em alto e bom tom que é lésbica, e que elas irão se casar assim que possível. O modo como essas revelações gradualmente impactam em cada um dos membros da família, ricocheteando de pessoa para pessoa, é explorado de forma razoavelmente sensível, cada qual com sua reação própria e com falas que refletem sua própria personalidade.

Não é surpresa que os irmãos de Jenny são jovens e suficientemente progressistas para não ficarem incomodados com as notícias (e nem tão surpresos assim, no caso de Michael). Seus pais, suburbanos acostumados à ideia da “família tradicional e heterossexual”, mostram-se bem menos confortáveis com a situação. Religião, apesar de um fator, não parece ser o principal problema para papai e mamãe, que estão mais preocupados com a vergonha que a própria filha trará à família, e o modo como as pessoas passarão a olhá-los depois do casamento, principalmente a melhor amiga de Rose (Diana Hardcastle) e o parceiro de trabalho de Eddie (Sam McMurray). E então eles perguntam para Jenny para jogar a verdade para debaixo do tapete – algo que ela se recusa a fazer e deixa bem claro ao olhá-los com uma mistura de desaprovação e repulsa.

Não é surpresa que Jenny força esses monólogos garganta abaixo de seus pais com uma fúria justificável e plausível, além de mostrar que conhecemos a protagonista o suficiente para entender que ela é uma pessoa altruísta que prefere satisfazer a vontade de todos à sua volta em vez de pensar nas próprias vontades. Infelizmente, “Casamento de Verdade” contém diálogos e mais diálogos autoexplicativos que combinam-se a uma desnecessária explosão musical (cortesia da trilha criada por Brian Byrne ou da playlist hiperativa que acompanha o longa-metragem). Essas cenas também servem como catalisadores de epifanias como “eu amo a minha filha gay”, as quais poderiam ser bem mais comoventes se desenvolvidas de forma mais equilibrada.

Mas não há tempo para isso. Há um casamento a ser planejado, afinal – e, nesse aspecto, apesar do baixo orçamento e da protagonista lésbica, esse filme mediocramente trabalhado não se difere muito de “Vestida para Casar”, filme de Anne Fletcher também estrelado por Heigl. Se é uma verdade universal que os casais passam meses e meses pensando na cerimônia de suas vidas, “Casamento de Verdade” nega todas essas premissas; as fases da preparação e da cerimônia acontecem de forma tão corrida que é impossível conectar-se com qualquer uma das supostas cenas de clímax – como o momento em que Rose decide abandonar seus preconceitos e comparecer ao evento.

Apesar disso, é válido pontuar a performance convincente de Gummer, cujo arco é visivelmente bem mais estruturado que a dos outros personagens, apesar de estar imersa em uma trama tão inútil que serve apenas para manchar o roteiro cheio de furos. Emond traz momentos de altivez consideráveis como uma mãe que inicialmente não reconhece a própria filha e que depois encontra sua redenção. Mas, em todo caso, o filme é mais uma palestra para conservadores homofóbicos que qualquer outra coisa.



Thiago Nolla

Escritor e roteirista, estudou em Arkansas na Truman High School e atualmente estuda Rádio, TV, Cinema e Internet na Faculdade Cásper Líbero. Com sete livros escritos, um a ser publicado em Abril, é um inveterado apaixonado por contos de fada e séries de suspense.

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