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Crítica | Armas na Mesa (2016)

Lobistas fazem parte de um círculo perigoso. Já nos primeiros minutos do filme, a personagem de Jessica Chastain nos dá um resumo bem metafórico, explanando que um profissional desta área deve sempre estar um passo à frente de seu oponente e inclusive prever qual o trunfo que ele está prestes a jogar. A frase pode parecer meio clichê, mas esta é a premissa principal de um roteiro muito bem escrito por Jonathan Perera, cujo dinamismo é emprestado de obras de Aaron Sorkin (A Rede Social, Steve Jobs) e cuja perspectiva de uma das indústrias mais viscerais da política estadunidense é transposta a personagens que falam mais rápido que qualquer ser humano que eu já tenha visto.

Não digo isto de forma pejorativa – muito pelo contrário: apesar do final previsível e mal articulado, os monólogos quase queimando de fúria, deixam Elizabeth Sloane, uma protagonista extremamente forte, roubar o foco da cena até quando se recusa a abrir a boca. Podemos vê-la como uma inimiga, principalmente ao descobrirmos sobre os limites que está disposta a atingir para derrubar seu adversário, mas ela tem uma causa, tem valores e irá defendê-los até seu último sopro de vida.

Dirigido por John Madden (cuja aptidão para dramas românticos originou o vencedor do Oscar Shakespeare Apaixonado e O Exótico Hotel Marigold), o filme traz a cidade de Washington e sua falida moral, tudo encarnado em instalações como garagens mal iluminadas, salas claustrofóbicas e arranha-céus amedrontadores – utilizando os clichês de gênero de forma até que original, oferecendo uma perspectiva atualizada das forças manipuladoras do Capitólio para os lobistas de interesses especiais. Considerando o trabalho fantástico de Chastain aqui e a performance de Sandra Bullock como uma consultante política em Especialista em Crises no ano passado, talvez alguns tetos foram realmente quebrados durante o ciclo de eleições nos Estados Unidos.

Sloane é uma elegante, sarcástica e impetuosa estrategista que, como justamente nos informa logo no primeiro plano-sequência em close, está sempre um passo à frente da competição. Tudo se resume à carta-trunfo, que deve ser guardada para o momento em que o adversário achar que venceu. Como toda golpista de grande sucesso, o filme tenta cegar a audiência com angulações mais fechadas, impedindo que enxerguemos a ambiguidade nas ações da protagonista. Leis sobre como os lobistas devem operar podem até existir, mas Sloane e seus parceiros da Cole, Kravitz & Waterman, uma firma de consultoria, são experts em dobrá-las. Se moldar regras fosse um esporte olímpico, Sloane seria medalha de ouro em todas as disputas.

Quando nós a conhecemos, ela está driblando a tarifa de importação do óleo de palma indonésio conhecido como “Imposto Nutella”, além de estar cuidando dos últimos detalhes da formidável viagem “educacional” de um senador para uma remota ilha do país. Acontece que esses acordos aparentemente inofensivos – ao menos em seu semblante – inspiraram diversos escândalos envolvendo Hillary Clinton e outros políticos. E isso pode até ser cotidiano em Washington, mas a população já cansou. Agora, se isso se traduz no desejo do espectador de ver como isso acontece e que proporções toma, já é outro assunto.

Depois de conseguir a aprovação da taxa, Sloane faz uma jogada surpreendente a seus superiores, rejeitando uma oferta lucrativa para representar o lobby de armas. Ela se demite da firma – deixando para trás seu chefe, interpretado por Sam Waterston e sua protegida, Alison Pill, ambos puxados diretamente da série The Newsroom – e migra para o outro lado da cerca, postando-se contra o armamento sem restrição com um idealista à moda antiga (Mark Strong).

Levando consigo quatro dos seus colegas mais inteligentes, ela logo dá nomes às cartas do jogo e prepara o campo de batalha, navegando através de personalidades complicadas – e compromissos pessoais – da sua nova equipe, na qual brilha a sobrevivente de um massacre escolar (Gugu Mbatha-Raw, o arquétipo da consciência do filme), cujos escrúpulos logo chamam a atenção de Sloane. A narrativa não torna a diversidade o foco, mas sim entra como bônus numa obra que afirma que o controle de armas se relaciona com não subestimar ninguém, não importando gênero ou raça.

Perera ganhou prestígio no ano passado ao assinar um dos roteiros da série Black List, e apesar do confronto ideológico óbvio que inclusive lembra os estratagemas da “guerra das trincheiras”, sua voz ainda parece não ter saído completamente. Em vez disso, ele claramente segue o estilo de outros escritores do gênero – como o supracitado Sorkin. E alguns podem inclusive sentir que os atores não veem este tipo de material o bastante.

Para Chastain, que é uma década mais nova do que o roteirista realmente imagino, Sloane é uma extensão das conflituosas e muito bem delineadas personagens que encarnou em Interestelar, A Hora Mais Escura e Perdido em Marte – profissionais formidáveis extremamente capazes e determinadas a fazer escolhas cujas consequências são imensuráveis. Aqui, por detrás de seus vestidos, sua forte personalidade e sua maquiagem impecável, a atriz demonstra de forma sutil algumas nuances de vulnerabilidade em Sloane, seja com cacoetes ou com seu vício por remédios que a impeçam de dormir. De qualquer modo, o roteiro ainda nos deixa de forma enigmática algumas perguntas sem respostas, nos levando a imaginar o motivo desses tiques.

Enquanto o último clímax do ato final é paradoxal a qualquer coisa que Chastain nos mostrou sobre sua personagem, ele a torna forte o suficiente para enfrentar a Corte Suprema do Senado, suas éticas e tudo o que carregou consigo durante o filme, com John Lithgow dando vida a um juiz determinado a limpara o sistema de parasitas como ela.

Alguns plot twists podem ter sido construídos de forma ocasional, incluindo uma cena ridiculamente inventada na qual alguém puxa uma arma na direção de um dos membros do time de Sloane. Entretanto, o inquérito passa a assumir um papel de destaque no resultado final. Sim, ninguém tem mais vontade de destruir a carreira da protagonista que seus ex-colegas, mas eles devem ter percebido que, enfrentando-a com tudo, traziam riscos para todo um sistema – e seu iminente colapso.



Thiago Nolla

Escritor e roteirista, estudou em Arkansas na Truman High School e atualmente estuda Rádio, TV, Cinema e Internet na Faculdade Cásper Líbero. Com sete livros escritos, um a ser publicado em Abril, é um inveterado apaixonado por contos de fada e séries de suspense.

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