the shallows 2

Crítica | Águas Rasas

Grande parte das nossas maiores ideias acabam no oceano. Jaume Collet-Serra, cineasta espanhol, cuja abordagem fria tornou A Órfã, uma narrativa tensa que estrelou Vera Farmiga e Isabelle Fuhrman, torna-se uma obra-prima de escala menor se comparada com Águas Rasas. Sem um grama desnecessário na narrativa, o longa não poderia vir em momento melhor – principalmente com a onde de sequências devastadoras.

Durante tensos 87 minutos, Águas Rasas entrega o que promete: Blake Lively em uma luta mortal contra um tubarão. Se você ainda não comprou seu ingresso, vou continuar. Nancy (Lively), fotografada em uma névoa dourada, faz uma pequena viagem saindo do resort mexicano no qual está hospedada para uma pequena praia secreta. Seus companheiros de viagem ficaram para trás, tendo se divertido com demasiadas de tequila na noite anterior. A praia é fora da trilha de caminhada, mas Nancy tem um número considerável de fotografias datadas de 1991, mostrando sua mãe surfista no mesmo local.

“A praia da mamãe?”, a irmã mais nova de Nancy pergunta através do chat do FaceTime, uma sequência inteligente, mas implacável. Como se a história necessitasse de uma backstory, descobrimos que Nancy está longe de casa e trancou sua faculdade de medicina para tentar lidar com a recente morte de sua mãe. Sua casa fica em Galveston, Texas, o que aparentemente explica sua personalidade dúbia – oscilando entre a queridinha da família e a grande aventureira nas águas. Sua “quase” formação previne um dos furos no roteiro – os momentos em que Nancy faz um torniquete em sua perna e dá pontos utilizando seu colar.

Isso é necessário porque há algo muito mais traiçoeiro que barreiras de corais nesse mar: um tubarão gigantesco e faminto. Mas antes que a besta feroz possa mostrar seus dentes, temos uma ampla sequência da protagonista “nas nuvens”, observando o paraíso no qual se encontra. Quando dois habitantes locais dizem se despedem, ela ainda permanece para trás, deliciando-se com mais algumas ondas. O restante das gravações mostram Nancy tentando descobrir como vai sobreviver às ameaças de um predador sanguinário.

Depois do ataque inicial (no qual a frieza do azul torna-se vermelho-magenta), Nancy passa suas horas finais arquitetando um plano sobre uma rocha plana que fica razoavelmente perto de uma boia aquática e uma sirene. Collet-Serra e seu roteirista Anthony Jaswinski ficam com a glória de desenvolverem uma série de obstáculos e de mudanças de figurino – apesar da narrativa permanecer em alto-mar. Primeiramente ela tem o traje de mergulho fechado, depois nem tanto, depois tem o braço arrancado como uma guerreira amazona etc. Os planos são construídos sobre a água, embaixo da água, mergulhando, com suas pernas sangrando e atreladas à fera. É uma performance de tudo ou nada, e o filme não se mostra tímido ao abraçar a natureza física do cenário

Mas o problema é: muitos dos críticos com os quais trabalho murmuravam e desprezam a “estupidez” do filme, fazendo comentários desnecessários para sequências onde a heroína luta bravamente contra o vilão. A premissa é simples – chega a ser ridícula, se analisarmos bem. A ideia aqui não é criar um roteiro e uma história com viradas instigantes; é preciso mergulhar de cabeça e aceitar o longa em seus próprios termos – quem dirá se o tubarão, depois de massacrar dois humanos, não voltaria para alto-mar e Nancy voltaria sã e salva para a areia? Cada passo criado – uma metáfora mais simples da jornada do herói – tem sua lógica interna, feito de uma maneira e visualmente interessante. Collet-Serra uniu-se ao diretor de fotografia Flavio Martínez Labiano e ambos se tornaram incapazes de nos dar um cenário maçante. Há também uma boa dose de humor, graças ao parceiro de cena de Lively – uma gaivota machucada – cujas reações nos relembram de um Jack Benny com plumas.

O grand finale traz alívio e comoção da audiência, e parte dessa animação é sem ironia. A conclusão é um pouco mais tocante e sem forçar o tema muito – como Gravidade. Não estou comparando a performance de Lively com Sandra Bullock, mas há amplas similaridades entre os dois filmes no quesito de energia exagerada e simplicidade atenuada. O que poderia ser apenas mais um fracasso da história do cinema, tornou-se um dos filmes B mais bem bem construídos em um longo tempo.



Thiago Nolla

Escritor e roteirista, estudou em Arkansas na Truman High School e atualmente estuda Rádio, TV, Cinema e Internet na Faculdade Cásper Líbero. Com sete livros escritos, um a ser publicado em Abril, é um inveterado apaixonado por contos de fada e séries de suspense.

Artigos relacionados


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *